terça-feira, janeiro 16, 2007

Negligentia


Uma sala vazia em pleno horário comercial.
O ambiente apenas exala perfumes custosos, de alto escalão.
Situação comum não só em Recife, João Pessoa e Natal
Mas no Rio de Janeiro, São Paulo e Maranhão.

No canto, histórias que se acumulam em papeladas sem fim.
Sem atenção.
Confusos enigmas, muitos participantes, uma só decisão.
Talvez a solução.

Entretanto, o branco amarelou.
A fibra do papel esfarelou.
A história, por descuido, desencadeou.
O desespero continuou.
O pagamento, não se efetuou.
Simplesmente porque a caneta não assinou.

Os autores, assassinados pelo descaso.
Os réus, favorecidos pela impunidade.
Só porque a autoridade chegou no trabalho tarde.

Monique Mendes

sábado, janeiro 06, 2007

Trajetória


Percorro caminhos solitariamente, sem apegos.
Danço tangos e boleros em salões vazios.
Respiro ares do acaso.
Escuto músicas que parecem de minha autoria.
Inebrio-me com a volatilidade do etanol.
Descubro-me, paulatimanente, nas entrelinhas do mistério.

Peço trégua às companhias permanentes.
Ao amor avassalador, tão necessário.
Cortejo olhares insinuantes e perfurantes.
Entrego-me a vontades inesperadas, a ímpetos apressados.
Vivo o cheio fugaz e
Desejo, momentaneamente, atores coadjuvantes.

Quando a mochila da vida torna-se pesada
Homeopaticamente, a solidão ecoa novos signos de ar
O tempo massageia a dor lombar
E, quando não há mais máculas nos músculos dorsais,
Estoura um livre recomeçar.

Monique Mendes

domingo, dezembro 24, 2006

Genero$o velhinho

Admito que acreditei em Papai Noel por muitos anos, que escrevi muitas cartinhas para ele e que coloquei muitos sapatinhos na janela à sua espera. Seu trenó voador, seu saco abarrotado de presentes e suas renas encantadas davam um ar mágico ao cenário natalino. Além disso, sua disposição para visitar chaminé por chaminé e sua obscuridade ao fazer um ato tão generoso às escondidas da madrugada, eram sintomas de sua humildade e do seu presentear despretencioso.

Contudo, quando crescemos, verificamos o quão ingênua pode ser a imaginação de uma criança. A imagem daquele velho bonzinho que, mesmo gordinho, saia de sua casa do Pólo Norte para visitar todos aqueles merecedores de presentes, cai por terra. Por vezes, inclusive, sinto repugnância por esse símbolo balofo que nos estimula a dar presentes casuais e a engordar a conta dos grandes empresários.

No decorrer do anos, verifico a tendência de que a apologia à vida suscitada pelo Natal foi sobrepujada pelo atabalhoado consumismo dos “shopping centers”. Esqueceram-se da cristandade da noite natalina, do seu espírito de renovação. Escapou-se da memória dos mortais a simplicidade do nascimento do menino Jesus, do amor entre os seres humanos. Pensa-se apenas em presentes, presentes e mais presentes.

Por isso, nesta data, deixe a fábrica de brinquedos de Papai Noel de lado. Incorpore o cenário presepial, com sua simplicidade de objetos e riqueza de espírito. O que se tem a comemorar, afinal, é a essência que nos nutre no decorrer dos dias, a vida que corre por nossas veias e o amor que tudo faz curar. Abandonemos um pouco a lenda de um generoso velhinho, com seu hipnotizante saco de brinquedos, dizendo-nos nas entrelinhas “compre, compre, compre”.

Monique Mendes

terça-feira, dezembro 19, 2006

Malu Mulher - pensamentos íntimos

Brasil, fim dos anos 70. A exibição ousada, em 10 episódios, de um novo perfil feminino - Maria Lúcia - uma socióloga cheia de opiniões, independente, motorizada, partidária da esquerda socialista brasileira, separada. Uma Chiquinha Gonzaga dos tempos modernos: um símbolo de vanguarda temido pelos homens, uma ameaça às mulheres machistas, um estímulo às feministas emergentes.

O seriado “Malu Mulher” trata de maneira extremamente transparente temas sobre as dificuldades das mulheres de seu tempo: virgindade, desquite, pílula anticoncepcional, aborto, infidelidade, maus-tratos. Estreado pelo episódio-jargão “Acabou-se o que era doce”, é notório, no decorrer dos capítulos, o embate do patriarcalismo europeu herdado pelo sistema latifundiário implantado em nosso país com a democratização da ciência e a expansão do ensino na era da modernidade que, trazia consigo, a emancipação feminina contra as amarras da ignorância e da reclusão.

Apesar dos precários recursos, fascinaram-me a divulgação em linguagem simples e a caracterização de uma época pretérita, da qual não fiz parte. Os acessórios utilizados pelos artistas, como óculos retrô, blusa de botões jeans, calça semi-beggy, compunham um panorama “brega” numa década ainda impregnada de machismos e desmandos, mas em que a radiola de vinil já ecoava o burburinho de mudanças. Cenário realmente encantador e progressista.

Entretanto, ao termo dessa manifestação artístico-social, mister foi observar como nosso panorana “século XXI” nos traz a sensação falaciosa de desenvolvimento. Os temas ali tratados, depois de quase 40 anos, pouco mudaram: a virgindade ainda é tabu, a pílula anticoncepcional ainda é repudiada pela igreja, a lei ainda condena o aborto, a infidelidade ainda é coisa de homem e o adultério deixou de ser crime ano passado.

O progresso humanístico, confundido com o desenvolvimento científico-tecnológico e com moda cibernética, ludibria aqueles que acreditam existir igualdade entre os sexos na atualidade. Diante de tal reflexão, penso que, porventura, fosse melhor se ainda usássemos a semi-beggy, mas não tivéssemos baixado o volume do burburinho de mudanças de nossas radiolas...

Monique Mendes
PS: Na época de exibição do seriado, foram reproduzidos 79 episódios, dos quais só tive o prazer de assitir a 10, com o lançamento do dvd. =}

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Bulufas para Descartes

Juro que creio no livre-arbítrio. Reputo verdadeiro sermos donos de nossos destinos, mas reconheço que, por vezes, surpreendo-me com a orientação autônoma, com o percurso ocasional e aparentemente ilógico que a vida, naturalmente, manisfesta.

Quando nos sentimos perdidos, parece que o tempo nos traz a experiência que precisávamos. O vento sopra o calor de sentimentos que não mais sentíamos. Novos convívios retomam a ingenuidade colorida, certa vez assassinada pelo retrato preto e branco do passado.

Essa coincidência dos acontecimentos, essa falta de explicação cósmica que nos persegue acalenta a indefinição de nossas buscas, a necessidade de termos escolhas a fazer. Talvez seja apenas uma abstração ou um argumento pouco racional para os que buscam explicação para tudo. Prefiro aderir ao relativismo dos sofistas. Bulufas para Descartes com seu dogmatismo e sua verdade absoluta.

E, vejo lógica no que acredito, pois se o pretérito tornou-se obsoleto em nossos corações, inexplicáveis sinais nos auxiliarão, inconscientemente, para que o deixemos em nossos secretos álbuns de recordações.

Monique Mendes